# Grupo de Vorcaro tinha informações do MPF, da PF e da Interpol

> Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mantinha um esquema de acesso a informações sigilosas do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da Interpol, conforme relatório da PF enviado ao STF. O grupo pagava cerca de R$ 1 milhão por mês para obter dados reservados desses órgãos, segundo os investigadores.

*IDECrim · Direito do Consumidor · 11 de setembro de 2026 · Quézia Andrade Tupinambá*

Relatório da PF enviado ao STF aponta que o grupo de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, acessava informações sigilosas do MPF, da PF e até da Interpol. O esquema era mantido com R$ 1 milhão por mês, segundo os investigadores.

Um relatório da Polícia Federal (PF), datado de 27 de fevereiro deste ano, revela que o grupo ligado ao então banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, tinha acesso a informações sobre investigações contra ele no Ministério Público Federal (MPF), em sistema de acesso exclusivo a policiais federais e até da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol). O documento foi enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias envolvendo o Master e Vorcaro. O sigilo da investigação foi levantado após pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin.

A PF aponta a existência de um grupo chamado "A Turma", descrito como uma estrutura paralela de vigilância, milícia e coerção privada mantida por Vorcaro. Um dos integrantes era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, tratado no documento como "Felipe Mourão" e "Sicário". De acordo com o relatório, Daniel Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês para manter a "Turma". Os investigadores apontam que Sicário foi contratado para realizar acesso "recorrente e irregular a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na PF, na Polícia Civil e no Banco Central".

O documento de 164 páginas, que inclui reproduções de conversas de WhatsApp entre os envolvidos, inclusive funcionários públicos, explica que o acesso clandestino se dava por meio da "utilização de logins funcionais de terceiros". A estrutura paralela atuava também na extração indevida de documentos e em consultas sem autorização em sistemas internos das instituições. "O conteúdo indica, de forma clara, o uso indevido de informações protegidas por sigilo, que eram obtidas e empregadas para a proteção da organização criminosa", frisa a PF.

O relatório mostra que, em 15 de fevereiro de 2024, Vorcaro reencaminhou a Sicário uma mensagem perguntando sobre um determinado inquérito policial dentro da PF. Quarenta minutos depois, Felipe Mourão responde com um áudio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Na gravação, Marilson diz que "já havia feito contato com a 'Tropa' e que dariam uma atenção especial ao pedido de Daniel Vorcaro". O relatório acrescenta que Marilson tinha "acesso ilícito aos sistemas do MPF". Marilson foi preso no dia 4 de março de 2026 pela 3ª fase da operação, em Belo Horizonte.

Diante da gravidade do acesso, a PF realizou auditoria interna e identificou que o acesso indevido partiu da Delegacia da Polícia em Juiz de Fora (MG). Os investigadores descrevem que Sicário enviou comprovantes de consultas realizadas nos sistemas do MPF, referentes ao CPF de Vorcaro. Foram identificados 15 procedimentos relacionados ao banqueiro, sendo 11 sigilosos. As buscas também usavam os termos "BRB AND MASTER", para identificar procedimentos em que ambos apareciam. BRB é o Banco de Brasília, investigado pela compra de títulos financeiros fraudulentos do Master.

Em um dos prints, a pessoa que retorna a conversa com Sicário demonstra interesse em manter discreto o trabalho de busca: "Veja com ele se ele quer que entremos em todos os processos sobre o BRB + Master. São muitos. Eu entrei no primeiro, mas são muitos e às vezes pode chamar atenção". O banqueiro responde: "Quero tudo. Atenção total". Sicário replica: "Então vou mandar puxar geral". A PF diz que o servidor que efetuou a consulta tentou ocultar a identificação, apagando o nome dele e o setor. "Essa circunstância indica a intenção deliberada do servidor de ocultar sua identidade, possivelmente por ter ciência da irregularidade envolvida no compartilhamento de documento sigiloso", escreve a PF a Mendonça.

No dia seguinte, Sicário enviou a Vorcaro uma "Notícia de Fato" do MPF, com orientação para apurar se havia crime contra o sistema financeiro nacional na tentativa de compra do Master pelo BRB. A PF destaca que o documento tinha "natureza reservada", o que apontava para "indícios de possível obtenção indevida" por Mourão. "Daniel Vorcaro estava se utilizando de acessos ilícitos para obter informações sigilosas sobre a presente investigação", sinalizam os quatro delegados federais que assinam o relatório.

Os delegados usam um print de 15 de setembro de 2025 para evidenciar que a "Turma" tinha acesso ao ePol, Sistema Oficial de Polícia Judiciária da Polícia Federal, de acesso exclusivo a policiais federais. O documento foi enviado a Sicário por Marilson Roseno da Silva, que reitera a cobrança do pagamento mensal ao grupo clandestino. A PF relata que o nível de sofisticação e de intrusão alcançado pela "Turma" é tão relevante que "as evidências mencionam, até mesmo, o acesso a organismos internacionais, como o FBI e a Interpol".

Em 24 de outubro de 2025, Felipe Mourão reencaminha um print de tela com o logotipo da Interpol e mensagens com as frases: "O que está em branco foi para ocultar o nome de quem fez a pesquisa" e "Estamos aguardando o relatório principal do FBI". A PF informa que consultou a Interpol no Brasil e obteve a resposta de que a identidade visual da tela não corresponde a mecanismos de busca disponibilizados pela Interpol. A organização ressaltou, porém, que pode se tratar de mecanismos de buscas de outros países. A PF levanta a hipótese de que a consulta tenha sido feita por meio de sistema de algum país com base em dados baixados da Interpol, "podendo-se inferir, de qualquer forma, que não se trata de usuário brasileiro".

Os delegados apontam que Vorcaro poderia ter utilizado um aparato jurídico para, pelas vias legais, ter acesso aos autos da investigação contra ele. "Contudo optou pelo caminho ilícito, já que dispõe de uma espécie de milícia pessoal, chefiada por seu 'Sicário' Felipe Mourão, a qual conta com a participação proeminente do policial federal aposentado Marilson Roseno".

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro de 2025. Segundo o BC, os motivos foram "grave crise de liquidez e comprometimento significativo" da situação econômico-financeira, assim como "graves violações às normas". Durante tentativas de salvar o Master, houve envolvimento do BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal. As perdas em negócios do BRB com o Master deixaram o banco público em situação crítica, precisando de R$ 8,8 bilhões. O Banco Central barrou a venda do Master ao BRB. O relatório da PF aponta "relacionamento ilícito" entre Vorcaro e dois diretores do BC.

Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e depois em março de 2026, por ordem do STF, situação que segue mantida. Sicário também foi preso, mas morreu dois dias depois, após tentativa de suicídio na prisão. Além da espionagem, Vorcaro contava com Sicário para "serviços", como atos de violência, coação e intimidação, "com menções ao planejamento e possível execução de agressões físicas", o que incluía mobilização de pessoas armadas. O objetivo, detalha a PF, era "pressionar e silenciar determinadas pessoas".

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Fonte (canonical): https://idecrim.com.br/direito-do-consumidor/grupo-vorcaro-tinha-informacoes-mpf-pf-ate-interpol/
